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IBERIANA

Yderst i Europa

Beretninger fra den iberiske halvø.
Allehånde om skik og brug,
landskaber og mennesker
i Spanien og Portugal.

Um café em Copenhaga

Em português Posted on 08 Apr, 2017 09:00:43


Na livraria LeYa em Viseu este livro saltou à vista de nós dinamarqueses. Comprei o livro, e agora gostaria de partilhar a minha leitura com vocês.

SINOPSE
O narrador, Álvaro, conta a vida dum colega de juventude, o Castro. O Álvaro é de classe baixa, o Castro da media burguesia do Porto. Conhecem-se na faculdade de economia, em 1968. São adversários políticos, o Álvaro é anarquista, o Castro é conforme com o sistema, católico praticante, anticomunista. Aspira a ser ministro das Finanças. Os dois fogem do serviço militar, para França.

No primeiro capitulo, Álvaro conta a situação do Portugal de 1970. Fechado às noticias do mundo e com a sangria dos jovens pelas guerras do Ultramar.
Nas ferias do verão de 1970 Álvaro vai com o Castro passar uma bela semana na quinta da sua mãe na Beira Alta. Façam campismo com Laura, a namorada de Castro. Laura engravida e como participa numa manifestação fica presa politica.

A finais de Fevereiro o Castro fugi, deixando a noiva presa com um bebé no ventre. O Álvaro ajuda o Castro para fugir. Perto da Fronteira com Galícia um agente da PIDE toma notas dele e isso faz que o Álvaro não possa renovar o adiamento da incorporação ao serviço militar. Então o Alvora tem de juntar-se ao Castro, e ele também vai para Paris. Não obstante, o Castro decide ir para Dinamarca onde acredita que seria mais fácil viver que em Paris.

Na estação do Norte em Paris o Castro olha uma rapariga com quem comparte a viagem porque o ex-marido, Francisco, não vem como acordado. Sofia é portuguesa, está a divorciar-se, vai a Roskilde onde vive como refugiada. Explica que o Francisco decidiu emigrar para Dinamarca para preparar a revolução desde fora. Deixou a Sofia grávida, e antes de fugir, casou com ela pelo civil, sem informar as famílias burguesas. Como a mãe de Sofia ameaça com regime interno, ela vai a Dinamarca para procurar o Francisco; mas ele exige-lhe um aborto. Ele agride-a, e a Sofia obtém a protecção do Sistema dinamarquês. As autoridades ameaçam a Francisco com deporta-lo e pressionam-no a divorciar.

A Sofia obtém asilo, cursos de dinamarquês e trabalho, creche para a filha e a simpatia da comunidade portuguesa de Roskilde. Um dia vai a Lisboa onde deixa a menina com os avós.

No comboio, o Castro conta para a Sofia que em Paris ele morou com Baptisto, um amigo dum outro amigo, Bastos. O Castro consegue trabalho numa cozinha, e arranja um quarto de criada para viver sozinho. Encontra uma rapariga, Rosalie, com a que estabelece uma profunda amizade, embora teme que ela seja espia da PIDE. Mas um dia ela desaparece, e dois policiais franceses detêm o Castro, que aprende que a Rosalie era Maria, uma terrorista basca. O Castro consegue provar que não sabia nada sobre a verdadeira identidade dela, mas a policia ameaça com entrega-lo à PIDE ou ao exército Português.

Por isso, Castro decide ir para o Norte. No comboio, a Sofia oferece-lhe a sua casa de Roskilde. O Castro conta-lhe sobre Laura e a sua fuga para França. Ela acompanha-o ao serviço de estrangeiros para obter o status de ”refugiado” como ela tem. O Castro vai a um curso de dinamarquês e cozinha para ele e Sofia.

Depois de uma visita a Tivoli passam uma noite apaixonada num hotel. Depois dormem juntos na casa de Sofia para desagrado dos amigos políticos de Sofia. O Castro não quer problemas e durante a semana fica em casa dum amigo que mora em Helsingør, mas passa os fins-de-semana com a Sofia.
O ex-marido aparece e agride ao Castro. A Sofia chega com a policia, e o Castro que teme pela sua vida volta a Paris embora a Sofia lhe peça ficar com ela. Necessita-o porque o Francisco é muito agressivo o os amigos portugueses estão com ele.

No comboio para Paris o Castro percebe que é um inconstante que não quer enfrentar escolhas difíceis. Em Paris, o Castro arranja trabalho e um dia a Sofia chama a sua porta. Amam-se apaixonadamente, e ela procura trabalho.
Mas a Laura sai da prisão e vem a Paris. As duas mulheres encontram-se num parque para falar (o Castro prefere não intervir). A Sofia volta para Dinamarca. Agora Laura, a filha e o Castro podem viver em Paris onde a Laura procura trabalho e habitação como porteira.

O Castro regressa a Portugal em 1974 e poucos anos depois fica ministro de finanças com o novo regime.
O Álvaro casa com a Sofia, e ele não sabe se ainda é amigo do Castro.

O ESTILO DO LIVRO

O autor, Carlos Pereira da Silva, é actuário, especialista em finanças, seguros e pensões. Publicou livros científicos e também um outro livro de ficção sobre a emigração: “Lisboa, Paris e Volta ao País da Saudade”.
Em “Um Café em Copenhaga” trata os temas da emigração e do exílio num momento decisivo para Portugal. Compara a maneira de tratar os emigrantes em França versus em Dinamarca.
O protagonista, Castro, exemplifica o filho de classe média alta relacionada com o regime; o Castro elege estudos que pudessem assegura-lhe uma boa carreira politica. O cambio radical de 1974 não impede que fique ministro. Em amores é um egoísta sem coragem.
Há dois outros personagens masculinos: Álvaro e Francisco. Francisco é simplesmente um chauvinista masculino brutal. Só Álvaro, o narrador, tem compreensão pelas mulheres e sabe apreciar a Sofia.
As três mulheres estão pintadas de cores idílicas, são ninfas, fadas, sireias, … É verdade que a Rosalie pertence a uma banda de terroristas, mas também é uma mulher simpática e honesta segundo o seu próprio código de honor.
Não pode dizer-se que o autor tenha grandes dons estilísticos. Usa uma linguagem quase pedante, com descrições exactas, mas falta de sensibilidade emocional. São bastante malogradas as passagens de lirismo, erotismo e psicologia.
Não obstante, é interessante ler o livro como testemunho duma geração que viveu o cambio da sociedade portuguesa nos anos 1970, e descreve a vida dos emigrantes portugueses com muitos detalhes interessantes.



Manual para não emigrar

Em português Posted on 07 Apr, 2017 16:31:33


(Se udførlig dansk version: Manuel de Oliveira)

Viseu é uma cidade do centro norte de Portugal. Na sua feira de antiguidades estava à venta este livro. Interessou-me imediatamente o título: “A Escola Primária e a Emigração Portuguesa: O Manuel de Oliveira.” Seria um manual para preparar os alunos à emigração? O livro obviamente pertencia ao género misto de novela e manual prático e parecia-me interessante estudar os conceitos e métodos pedagógicos utilizados no norte de Portugal faz 100 anos. Por isso comprei o livro e descobri que o doutor Simões Lopes não tinha escrito um livro em favor, senão em contra da emigração!

A importancia da escola no pensamento republicano
Neste livro desdobra-se uma visão republicana. A visão em questão formou-se já durante a monarquia, entre políticos e pedagogos renovadores. Achavam que a nova sociedade sonhada precisaria de uma população alfabetizada, porque para viver duma maneira civilizada e participar no processo democrático o cidadão deve saber ler, escrever e contar. Encontramos a mesma ideia no Acto Colonial de 1930 e a Carta Orgânica do Imperio Colonial Portugués de 1930, já no Estado Novo: a primeira condição para um africano ser assimilido era: Saber ler, escrever e falar portugués fluentemente. Só em segundo lugar exige-se ter meios suficientes para sustentar a sua familia. (Eduardo Mondlane, Lutar por Mozambique.)


O livro de Lopes vai dedicado a Bernardino Machado, duas vezes presidente da Primeira República Portuguesa e grande defensor da escola e do ensino como instrumentos para formar o ”homem novo”, o cidadão ideal da República. Machado era físico, catedrático na Universidade de Coimbra, e já durante a Monarquia publicou vários livros sobre pedagogia. Os políticos da Republica acreditavam que era de primeira importância lutar contra o analfabetismo para libertar ao povo e acondiciona-lo para ser cidadãos responsáveis, e ao mesmo tempo introduziram a escola secular, independente da igreja, que foi considerado uma ferramenta de doutrinação.

(Nisto os princípios da República liberal portuguesa de faz 100 anos parecem-se com a política da União Soviética, de China, de Cuba depois da Revolução – e a do Estado Novo: nos regimes totalitários também achava-se que na escola se poderia formar uma mentalidade conforme à ideologia do regime. A diferença é que nas sociedades totalitários as mudanças tendem a passar da cima abaixo, e o ideal liberal pretende facilitar o processo inverso.)

O contexto histórico-económico do livro

O livro foi publicado pelo Centro Comercial do Porto em 1914, quer dizer no quarto ano da primeira republica, e dirige-se expressamente a pessoas do norte de Portugal. Ali muitas famílias tinham naquele momento sérios problemas económicos, em grande parte a causa do sistema de minifúndios, e a emigração, sobre tudo ao Brasil, apresentava-se como uma solução aos problemas.


A maioria dos que emigravam eram jovens rapazes. Infelizmente, no Brasil houve uma grave crise económica, e o governo republicano de Portugal procurou parar a emigração. Neste contexto aparece nosso livro.
O autor do livro, Lopes, percebe que para subsistir nas pequenas aldeias do Minho, não se pode seguir os padrões tradicionais: é preciso introduzir métodos modernos e uma organização solidária local na agricultura da região. Trata-se de aproveitar o potencial não explorado de maneira científica e racional.

A utopia: criação duma aldeia ideal

Com este fim escreve o livro, como uma ficção utópica, mas verosímil. Escolha como protagonista um rapaz, O Manuel, que depois de terminar a escola primária é destinado a emigrar para o Brasil. Mas convence ao seu pai de que seria possível viver dos produ­tos locais, se pode convencer aos vizinhos para participar. O livro contem todas as pale­stras que O Manuel da em frente da casa familiar. Cada semana vêm mais vizinhos para escuta-lo.


É fascinante imaginar a realização do projecto, organizado como cooperativo: os aldeanos edificam celeiros e um chiqueiro comum para todos os porcos da aldeia, construem uma nitreira, compram em comum sementes, máquinas, fertilizantes artifici­ais, e organizam em comum transporte e venta dos produtos.

A importância do professor
Com muitos mais detalhes conta-se como já ninguém precisa emigrar graças ao que o Manuel aprendeu na escola primária. O instigador do cambio é o seu professor ilustrado e idealista, que lhe presta os seus desenhos e provas geológicas. Concorde com isto, a dedicatória do livro vai dirigida não só às filhas do autor e à toda Escola (com maiúscu­la) portuguesa, senão ao Professorado. Os homens da República compreendiam que era importante formar professores e professoras, e já antes houve experimentos pedagógicos nas escolas e escolas móveis, e intentos de alfabetização geral.
Em 1882 o chamado método João de Deus é decretado obrigatório, com o uso genera­lizado da sua cartilha maternal. Manteve-se nas escolas móveis até 1921.

Crítica 1. O que passa com o saber mudo?
O Manuel do livro tem sucesso ao persuadir seus vizinhos para mudar de costumes na agricultura. Mas na realidade imagino que haveria problemas. Por exemplo: antes tin­ham cabras, os pastores iam com elas ao monte. No programa de Manuel sacrificam as cabras para comprar vacas e fabricar manteiga e queijo holandês. Para isso é necessário aprender novos métodos, novas habilidades, uma coisa que não se obtém de um dia ao outro. Imagino que alguns vizinhos resistir-se-iam a abandonar o saber e a experiência obtidos durante gerações, o que se chama” o saber mudo”.

Crítica 2. O que passa com os baldios?
Eu acho que um elemento problemático do projecto do Manuel é que para obter mais solo cultivável expropria os baldios e reparte o solo entre os vizinhos, porque opina que” não é rico aquele que possui muito, mas aquele que se contenta com o suficiente”. Continua:” Havemos de ser aqui uma família de bons irmãos” – e eu acredito que é uma suposição optimista demais. Nas aldeias era costume utilizar a floresta e a charneca em comum, e eu duvido de que fora possível chegar à uma decisão unânime sobre a sua di­visão em parcelas familiares segundo um principio justo. Também pode­mos duvidar se seja sustentável cambiar cabras por vacas numa região montanhosa.

Educação. Uma Mega-tendência

Hoje em dia, apostar pela Educação é uma Mega-tendência globaliza­da. O Brasil, muitos países emergentes de Ásia, a Índia e o Brasil, apostam seriamente na educação tecnológica de suas multidões de jovens cidadãos. Tambêm Portugal, no seu austero orçamento estatal para 2017, aumenta os recursos à inovação e à qualificação da escola pública. Assim se formarão cidadãos competentes, que esperamos poderão contribuir ao bem-estar da sua nação – e se tiveram que emigrar, terão qualificações para subsistir no estrangeiro.